quinta-feira, 31 de maio de 2012

EFEITO ESTUFA


Cena-USP avalia concentração de gases
do efeito estufa no Sudoeste da Amazônia
Pesquisa relaciona emissões com a expansão da agropecuária,
queimadas e desmatamento em Mato Grosso e Rondônia
Uma equipe multidisciplinar do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP) iniciou em maio um estudo para quantificar os estoques de carbono do solo e o fluxo dos principais gases causadores do efeito estufa (dióxido de carbono, óxido nitroso e metano) nos estados de Mato Grosso e Rondônia. Ligado à Universidade de São Paulo, este trabalho do Cena conta com auxílio financeiro da Fapesp e está sob a coordenação do pesquisador Carlos Cerri.
A pesquisa é dividida em dois grupos de trabalho e está avaliando na região o impacto do desmatamento, das queimadas e o avanço da agricultura e pecuária nos últimos 40 anos. As medições estão sendo realizadas em locais estratégicos, distribuídos em uma área de 1,2 milhões de quilômetros quadrados, porção equivalente ao dobro do território da França.
Prof. Cerri: 15 mil km em 45 dias - crédito foto: Paulo Soares/EsalqAo retornar da primeira expedição para o Cena, que fica localizado junto ao campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), em Piracicaba, o professor Carlos explicou que além das avaliações do carbono do solo e da emissão de gases do efeito estufa, um dos objetivos do trabalho é mapear a vegetação nativa da região. A expedição inicial percorreu 20 mil quilômetros e realizou amostragens em 22 municípios em 45 dias.
A metodologia da pesquisa emprega uma base de dados complexa. Envolve dados obtidos em prefeituras, censo agropecuários do IBGEe mapas da superfície terrestre geradas por satélites da agência espacial norte-americana (Nasa). Quando for finalizada, a pesquisa auxiliará também na formulação e revisão de políticas públicas ligadas ao ambiente e ao uso da terra em fronteiras agrícolas.
O professor Carlos é um dos pesquisadores brasileiros que contribuiu para a elaboração do Protocolo de Kyoto. O tratado internacional redigido em 1997 com o intuito de reduzir as emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera.
Efeito estufa
Esquema de coleta de solos na primeira expedição do Cena à área de estudo - crédito foto: Cena/USP"Os números sobre as emissões na região permitirão à comunidade científica aprofundar em estudos sobre o efeito estufa", explica o cientista. Segundo ele, 66% das emissões globais de gases são resultantes da queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural). O restante é relacionado à agricultura (20%) e ao desmatamento (14%).
O efeito estufa ocorre em uma faixa determinada da atmosfera, quando parte da radiação solar refletida pela superfície terrestre é absorvida pelos gases presentes na atmosfera. Os principais gases envolvidos no processo são o dióxido de carbono, o metano, o óxido nitroso e os clorofluorcarbonos.
Os gases absorvem uma porção da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre e irradiam partes desta energia absorvida de volta para a superfície. Como conseqüência, o calor é retido e concentrado, devido à superfície receber quase o dobro de energia da atmosfera do que a proveniente do Sol.
Representação do efeito estufa
Importância vital
"O efeito estufa natural é fundamental para a manutenção da vida na Terra. Este fenômeno é responsável por manter a temperatura média do planeta em torno de 15ºC. Por outro lado, o efeito estufa antrópico resulta em um desequilíbrio energético do planeta e contribui para o aquecimento global", explica o professor Carlos.
Segundo o Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC), estabelecido em 1988 pela ONU e pela Organização Meteorológica Mundial, a maior parte deste aquecimento, observado durante os últimos 50 anos, se deve muito provavelmente a um aumento dos gases do efeito estufa.
Grande parte da comunidade científica internacional concorda com a tese. Aponta como fatores o aumento da poluição provocada pela combustão de combustíveis fósseis, o maior consumo energético no planeta e o uso intensivo de águas subterrâneas e do solo para a agricultura.
Lavoura de milho na região  - crédito foto: Cena/USP
Verdade inconveniente
A industrialização dos três últimos séculos aumentou a concentração de gases do efeito estufa. O resultado observado foi a elevação, com o passar dos anos, das temperaturas médias mundiais, o chamado aquecimento global. Se a tendência não for revertida, há possibilidade de seca, desertificação, inundação, furacão, proliferação de doenças e a extinção de espécies. Outro risco é o derretimento das calotas polares e geleiras, que com o aumento do nível das águas ameaça áreas litorâneas e ilhas densamente povoadas.
A concentração das emissões no Hemisfério Norte é ligada àindustrialização e ao grande consumo de combustíveis fósseis. Na porção Sul, os riscos incluem a expansão das fronteiras agrícolas, um dos principais pontos de interesse deste estudo que vem sendo conduzido pela equipe do Cena na região sudoeste da Amazônia. Com relação ao Brasil, a emissão de gases é inversa a situação global e apenas 25% provem da queima de combustíveis fosseis.
"Cerca de 75% do dióxido de carbono que o País emite na atmosfera são derivados de desmatamento e práticas agrícolas. Quando levamos em consideração desmatamento e agricultura o Brasil salta da posição de 17º emissor mundial para a incômoda quarta posição, o que o coloca no grupo dos principais países emissores de gases do efeito estufa", esclarece.
Plantio direto
Segundo Carlos, há opções para reduzir a concentração atmosférica dos gases do efeito estufa, como estimular reflorestamentos e empregar práticas conservacionistas de manejo do solo, tais comoplantio direto e a utilização de sistemas integrados de cultivo. "Em vez de usar implementos que revolvem o solo, esta metodologia aumenta a fixação do carbono no solo, melhorando os atributos químicos físicos e biológicos do solo e ainda resultando em mitigação da emissão de gases do efeito estufa", finaliza.


Rogério Silveira
Da Agência Imprensa Oficial

Reportagem publicada originalmente na página III do Poder Executivo do Diário Oficial do Estado de SP do dia 17/11/2007.

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